Livro traça panorama histórico da gastronomia

Conteúdo Folha de São Paulo- Se fosse nos dias de hoje, o presidente americano Thomas Jefferson (1743-1826) poderia ser chamado de gourmet no mundo dos restaurantes —ou seja, aquele que conhece e aprecia a boa mesa.

O principal autor da Declaração da Independência dos Estados Unidos tinha sua estimada receita de sorvete, feita com gema, creme de leite fresco, açúcar e fava de baunilha.

Além de apreciar o hábito francês, Jefferson também trouxe da Itália uma máquina de fazer massas. Sua filha, Martha Jefferson Randolph, anfitriã da casa na época, é creditada por difundir uma das primeiras versões de “mac and cheese”.

Essa receita do clássico macarrão com queijo aparece ilustrada em um pôster colorido, meio hipster, nas páginas do livro “Food & Drinks Infographics”, que também exibe as instruções manuscritas do sorvete de Jefferson.

Esse convívio entre imagens modernas e antigas percorre todo o livro, que acaba de chegar ao Brasil em edição trilíngue (inglês, espanhol e italiano), sem previsão para versão em português.

Com pesquisa, organização e textos da carioca Simone Klabin, 52, a obra é uma coleção de infográficos que abraça uma quantidade surpreendente de temas dentro gastronomia.

Simone prefere evitar o termo enciclopédia, de “tom muito científico” para descrever o volume de 464 páginas que “tem humor e leveza de forma natural, com coisas que nunca paramos para pensar, como a história do chiclete”, diz.

Edição da Taschen traz de história do chiclete a receita de sorvete de Thomas Jefferson

 

O projeto nasceu dentro do departamento de design gráfico da Taschen, a editora especializada em arte, referência mundial no assunto.

O lançamento é, aliás, o quarto de uma série dedicada a explicar temas com a linguagem da infografia. Ela inclui, também, uma edição que condensa trabalhos dos arquivos de 128 anos da National Geographic.

Na versão dedicada à comida, foram usados recursos gráficos que incluem ilustrações, desenhos, fotografias, linha do tempo e gravuras antigas.

Um dos exemplos mais audaciosos é a representação que explora as conexões entre pessoas, lugares e marcos da cultura gastronômica em formato de mapa de metrô.

Nele, personalidades como a ex-primeira dama americana Michelle Obama e o chef inglês Jamie Oliver dão nome a estações, distribuídas em linhas que simbolizam temas como educação, sustentabilidade, mídia.

Esse e outros infográficos foram garimpados por Simone em fontes diversas, como a biblioteca da universidade americana de Cornell e pequenos acervos, como o do casal de livreiros da Books & Bygones, que mantém peças raras no interior da Inglaterra.

Advogada especializada em propriedade intelectual, Simone apurou o olhar em um mestrado de cinema e estudos culturais na New York University, na mesma cidade onde vive há cerca de 20 anos.

Mas, ao longo do processo, também recebeu comentários do próprio Benedikt Taschen, fundador da editora, que dá palpite e acompanha de perto as edições ainda hoje.

Foi o publisher que pediu a inclusão de mais referências históricas, como gravuras ou reproduções. “‘Eu gosto de vintage’, ele me disse.

E realmente faz diferença ao dar uma perspectiva da cultura humana em torno da comida”, afirma Simone.

A linguagem visual permitiu à obra englobar assuntos tão diversos como o funcionamento de um micro-ondas, a melhor forma de organizar uma festa e a tabela que mostra a disponibilidade de peixes nos oceanos. Os clássicos brasileiros arroz e feijão e brigadeiro também estão lá.

No prefácio, o jornalista americano Michael Ruhlman defende que imagem é uma fonte poderosa de informação, apresentando imediatamente o contexto a quem a vê.

E o livro funda-se nisso para simplificar assuntos complexos, dominados por especialistas, como a harmonização de vinhos.

Ainda assim, ao saber do projeto, algumas pessoas perguntam a Simone se a publicação é voltada a receitas.

Não, ela responde, mesmo que muitos preparos estejam contemplados ali —um deles, a saber, é um mousse de chocolate feito há anos pela própria autora. “Meus filhos não aguentam mais. Mas sempre dá certo”, diz.